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A CIDADE
   

Até Breve, Menino!

 

Paulo Afonso
Paulo Afonso, é jornalista, dirigente do CEDECA/ITAITINGA e atualmente é Secretário Municipal de Meio Ambiente e Defesa Civil.

Relendo o Apocalipse, enquanto penso em nossos meninos e meninas, assassinados pela polícia.

Feliz quem lê e os que escutam as palavras dessa profecia, se observam o que está escrito nela. Pois o tempo chegou.

Ele levantara cedo. Nem conseguira dormir, a asma estava presente outra vez, e sentado em sua rede, a respiração ofegante, sofrera toda a noite com a dispnéia e a fome a turbar-lhe a mente cansada. No cômodo pequeno, da casa de taipa, as redes sujas se entrelaçavam. A mãe, há muito se foi, atraída pelos apelos fáceis do mundo. O pai ao canto, semimorto, esquálido, pele e osso. Mais perto da porta, ele, a irmã mais velha e os dois irmãos menores. Todos, confinados em um pequeno quarto que durante o dia é sala e cozinha. Daqui a pouco todos acordarão. O pai seguirá para o trabalho nas pedreiras, em busca do alimento, nunca suficiente. A irmã, com seus treze anos, buscará o dinheiro fácil que vem dos motoristas de caminhão à beira da BR-116. Ele, faminto, asmático, subnutrido, doze anos, assemelhando oito, estará perambulando, lavando carros, levando recados; e os irmãos, com oito e seis anos, mendigarão qualquer dinheiro em troca de qualquer coisa que possam fazer, pelas calçadas.

Mas, ela também viera... Veio à noite, sorrateira e silenciosa e o procurou por todos os becos e vielas de sua cidade suja e abandonada, deste Nordeste esquecido, por onde ele perambulava. Aos primeiros raios do sol, logo ao amanhecer, ela o encontrou tranqüilamente, à caminho do pátio do estacionamento da Secretaria de Saúde. Ele caminhava, ora numa calçada, ora noutra, ora pelo asfalto da avenida ainda deserta. Tinha fome. A fome acumulada de mais de 500 anos. Já pensava no almoço. Onde seria, o que seria, quem o daria?

Mas, os três cavaleiros do apocalipse, ou ela, simplesmente ela, a morte, e o Hades que a acompanha, a besta genial e milenar, que o homem ainda não conseguiu dominar, chegara, e, chegara sem aquele cavalo esverdeado, hoje inútil, pois o trocara por uma máquina moderna, uma viatura possante, com sirenes e lâmpadas vermelhas no teto, sempre a piscar, e que tanto o fascinava. Fascinava e amedrontava. E chegara armada. Não mais com aquele arco antigo, mas com uma moderna pistola automática de calibre .40. Ela estava armada para matar até a quarta parte dos habitantes do mundo, com a pistola cromada e a fome, e a peste e as feras. Não havia, portanto, a menor possibilidade de fuga. Eles, os Cavaleiros do Apocalipse, eram treinados em missões de perseguição, busca e captura, detentores de exímia pontaria. Ele, coitado, adolescente, doze anos, menino de rua, pobre, faminto, descalço, asmático, nem poderia correr. Era seu momento!

Os três Cavaleiros do Apocalipse, prepararam-se para interceptá-lo. Vestiam fardas vistosas, com uma bandeira numa das mangas, inscrição no peito, porém já não usavam dragonas ou esporas. Nem usavam tiros de festim. Um, tinha nos braços três divisas de ouro. E eram puros. Puros como a luz das estrelas, e o brilho que deles se desprendia era leve e afável, no éter matinal.

Apenas chegaram, numa carreira louca e hedionda, levantando a poeira em espirais e, muito calmamente disseram-lhe: - “Menino, nós somos parte de você, desde o sempre e até o infinito. Somos seus irmãos”. As palavras eram fortes e calmas. – “Viemos para leva-lo para mais alto, para leva-lo para casa”.

Neste mesmo instante, os vizinhos despertaram com um estampido seco, um tiro. Até, talvez, o grito. Talvez... Talvez nem tenha gritado o pequenino, já inerte no chão, com um tiro que lhe perpassara a boca, arrancando-lhe dentes, língua, maxilares. Talvez nem tenha conseguido gritar, no apogeu da fome, do desespero, da dor, do medo.

E daí, triste ironia: dos braços cheios de pólvora, que há poucos segundos quase lhe roubara a vida, vem o socorro. O transporte para o hospital, na mesma viatura, com a qual ele tanto sonhara. Aí está menino. Teus anjos realizaram teu desejo, estás na viatura, a voar pelos ares, sirene ligada, luzes piscando, a caminho do hospital, na companhia dos teus algozes... Mas o hospital não o recebe. É grave o caso. E na mesma viatura de tantos sonhos, a viagem para a capital. Capital tão sonhada, que o dinheiro curto o proibia de conhecer. Como em um vôo, cabelo ao vento, alegria e dor, no corpo um leve torpor.

No hospital, a espera. Faltam vagas para meninos pobres, na sala de cirurgia. Faltam vagas para meninos pobres, na UTI. Terás que aguardar em coma, na maca, na emergência pediátrica, até que surjam vagas. Ah, se pudéssemos ouvir-lhe os pensamentos. Saber como foi tua execução. Acorda, menino, diz! Senão vai prevalecer a versão dos teus carrascos. Horas, dias, e os sete cavaleiros do apocalipse, à espera do momento certo, rondando por ali, para o ato final. Por fim a cirurgia e a UTI. A fria UTI, na qual ele ficaria por 14 longos dias. O carinho dos médicos, o afago das enfermeiras, o pranto da família, os fortes sedativos, tudo lhe embotava o entendimento e a razão, não lhe permitindo sofrer, ou perceber a estupidez da violência que se abatera sobre ele. Por que teria que ser assim?

Mas, neste instante, no amanhecer de 12 de dezembro, raiou para ele, o entendimento, tal como o iluminara sempre, em toda a sua vida. De repente, o teto branco da UTI, pareceu azular-se, meio branco de nuvens, aqui e ali. De entre as nuvens, pareceu-lhe ver uma imagem de mulher, da qual emanava muita luz. Junto a ela estava um pequeno índio, Juan Diego. Os dois permaneciam parados, e cercados por muitos meninos e meninas pobres, de toda esta Pátria Grande. Em meio ao leve ruído das máquinas da UTI, ele a ouviu dizer: - “Menino, sou sua mãe, Maria! Maria do Tepeyac. Sou sua mãe, sua Tonantzin, sua venerável mãe. Sua e de todos os meninos e meninas que a sociedade excluiu. Você hoje virá comigo, para a sua nova morada, pois és um, dos cento e quarenta e quatro mil, marcados com um selo.” – “Não!” – gritou ele, e prosseguiu angustiado: - “Não posso! Preciso vestir aquela roupa nova no Natal. Tenho os carros para lavar, meu pai espera, que eu leve dinheiro para pagar a prestação da bicicleta! Não posso!” Mas ela o olhava serena, com um sorriso manso. O indiozinho lhe estendeu a mão. Tinham razão. Ele, compreendeu ali, que podia voar mais alto, e voou. Era tempo de voltar para casa...

Lançou um último olhar, longo e triste pelas paredes brancas da UTI e seus aparelhos engraçados, que não serviram para nada. Ergueu-se do corpo e voou pelos céus da capital, tão formosa, e que ele não conhecera. Rápido voou para sua pequena cidade, onde reviu esta terra e suas ruas, onde aprendera tanto; revisitou lugares queridos, um último olhar, e um último sorriso, em meio àquela dor. Um sorriso para a irmã querida, de olhar sagaz, sorriso maroto, precocemente prostituída; para o irmão, que cedo, já segue seus passos; para o irmãozinho menor, torcendo que se livre de um fim igual ao seu; para a mãe, que o abandonou tão cedo; para o pai, um lutador... Um sorriso de adeus para aquelas tias do hospital, que tantas vezes, às escondidas, lhe deram um prato de comida; para as tias da Pastoral do Menor, que lhe acolhiam com carinho, e tantos, tantos outros... Depois, disse, convicto: - “Estou pronto!”

Neste instante, às 05:56h, elevou-se por entre os vultos brilhantes, e, tal como belas estrelas desapareceram em um céu sem nuvens, envolto no azul do manto de sua Mãe Maria de Guadalupe, padroeira desta América pobre, cujo dia, hoje se comemora.

Nós, os seus amigos e familiares, ainda dormíamos. Dormíamos, enquanto acreditávamos que da UTI, ele voltaria. Não nos foi nem possível dizer-lhe: - “Até breve, menino!” Mas aqueles que àquela hora já estavam nas ruas, dizem que o céu tornou-se sombrio, encheu-se de nuvens, até parecendo que a noite voltaria. No alto, nuvens, qual um grande trono branco, e dele ecoavam, fortes como trovões, vozes que gritavam potentes: - “Senhor, santo e veraz, quando julgarás os habitantes da terra, e vingarás nosso sangue?” Mais ao alto, seguindo a Mãe de Guadalupe, nosso menino com um arco, em um cavalo branco, tendo à cabeça uma coroa, partiu vencedor, para vencer sempre! E, enquanto as imagens iam se dissipando nas nuvens, noutra, mais ao alto, via-se sete lâmpadas de ouro, e no meio delas, uma figura humana de túnica talar, o peito cingido com um cinto de ouro, cabeça e cabelos brancos, como lã branca ou como neve, os olhos como chama de fogo, seus pés como de bronze polido e acrisolado, sua voz como o estrondo de águas torrenciais: - “Eu sou o alfa e o ômega, aquele que era, e é, e será.”

E nós, nem lhe dissemos até breve, menino. Ah! Isso já nem importa, irmão. Não importa se não dissemos até breve, mas importa muito saber, que hoje você é feliz, que nós o temos em nossos corações, e que lutaremos diuturnamente para que os fatos que lhe roubaram a vida precocemente, sejam devidamente esclarecidos. Porque, menino, não aceitamos mais que os homens daquela corporação, continuem matando nossos meninos e meninas, sob o argumento sempre igual, de um tiro acidental.

Paulo Afonso de Paiva Cavalcanti , é jornalista, ex-Conselheiro Tutelar de Itaitinga - CE, coordenador da Pastoral do Menor Regional NE 1/CE, e Membro do Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente – CEDCA/CE

 

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